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IDEB: como melhorar a nota das Escolas?
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Brasil é o sétimo país do mundo em número de analfabetos, sendo que 18
milhões destes nunca passaram pela escola. Este ano foi realizada com amplo
debate a Conferência Nacional de Educação. O documento final aponta
diretrizes e estratégias de ação para construção de um sistema articulado de
educação na união, estados e municípios.
Nas duas últimas semanas, recebemos os resultados do Índice da Educação
Básica (IDEB). A primeira etapa do ensino fundamental (1ª à 4ª série) ficou
com nota média de 4,6. A segunda etapa (5ª a 8ª série), ficou com 4,0; o
ensino médio, por sua vez, teve média 3,6. As médias, apesar de
"vermelhas", estão acima das metas traçadas pelo governo para o ano
de 2009, que eram de 4,2, 3,7 e 3,5, respectivamente. A nota é medida numa
escala que vai de 0 a 10.
O ensino médio, que apresentou nota média 3,6, foi o que apresentou menor
crescimento: teve apenas variação de 0,1 em relação ao último índice
divulgado, em 2007. De 2005 a 2007, a nota do ensino médio teve o mesmo
aumento: foi de 3,4 para 3,5.
Quatro ações são necessárias para promover o incremento continuado e
sustentado do IDEB das escolas. A primeira ação é utilizar eficientemente os
dados oriundos dos distintos procedimentos de avaliação (federal e estadual)
do sistema educacional, de modo a permitir a reflexão da comunidade interna e
externa à escola, bem como o planejamento de ações factíveis de aprimoramento
pedagógico.
A segunda ação será negociar com a comunidade escolar metas educacionais
factíveis de alcance em um dado período de tempo. A terceira ação será
reconhecer publicamente o alcance das metas estabelecidas, através de
incentivos à comunidade escolar. Um incentivo possível é proporcionar
formação continuada aos gestores e aos professores das escolas que mais se
destaquem no alcance das metas e/ou no incremento dos valores do IDEB.
Outro questão necessária a ser incentivada é a aproximação das famílias das
escolas. Isso pode se dar através de palestras, oficinas, cursos e outras
medidas que façam com que a comunidade se sinta parte do processo
educacional.
Por fim, a quarta ação, talvez a mais relevante e revolucionária: a adoção do
tempo integral nas escolas, que implica em buscar uma formação integral dos
aprendizes, rumo seguido há muitas décadas pelos países europeus e asiáticos.
Para isso, a escola deverá ser repensada: laboratórios para práticas de
pesquisa experimental deverão ser priorizados; atividades educacionais,
culturais e esportivas deverão ser ampliadas; currículos deverão sofrer
alterações, com vistas ao desenvolvimento de competências e habilidades
exigidas por uma sociedade plural e democrática, em consonância com as
demandas do mundo do trabalho; inovações educacionais e tecnológicas deverão
ser focadas e perseguidas pela comunidade escolar, através da pesquisa
científica; profissionais devem ser alvo de constantes ações de formação e de
reconhecimento público de mérito; famílias devem participar ativamente deste
novo modelo educacional, acompanhando os alunos, negociando metas
educacionais e cobrando melhores resultados nas avaliações externas; melhores
alunos deverão ser inseridos na formação de seus pares, através de ações de
monitoria.
É oportuno, recordar antigo adágio repetido pelo cientista norte-americano
Benjamin Franklin: investir em Educação sempre traz consigo excelentes
benefícios a uma nação.
Mas qual é o segredo de uma boa escola? Como alcançar uma nota maior que 7?
Bons professores, pais participativos, acompanhamento dos alunos: o receituário
inclui elementos óbvios. Mas, longe de ser aplicado em todo o Brasil, ele é
seguido isoladamente por algumas escolas, como as instituições mais bem
rclassificadas no IDEB, o principal indicador nacional da educação, que
atribui nota de 0 a dez às escolas públicas brasileiras. Localizadas no
interior de São Paulo, essas escolas são municipais e ficam em cidades
pequenas. Têm baixos índices de repetência e de evasão escolar. A distorção
idade-série (percentual de alunos em cada série, com idade superior à idade
recomendada para aquele ano) fica abaixo da média brasileira. Todas elas
superaram a nota de muitos países desenvolvidos, com média na casa dos 6. E
têm o dobro da média brasileira, hoje beirando o 4,2.
A escola Professora Elisabeth Maria Cavaretto de Almeida, em Santa Fé do Sul,
que alcançou a nota 8,6, encabeça o ranking.
Empatadas em segundo lugar, com 7,9, ficaram a escolaArminio Giraldi, de
Barrinha, a escola André Ruggeri, de Cajuru, e a escola Cirley Volpe Lopes,
de Santa Fé.
As escolas Amilde Tedeschi, de Adolfo, e Rosimare Camargo Benitez, de Santa
Fé, alcançaram a nota 7,7, ficando em terceiro lugar.
Como as
escolas campeãs do IDEB chegaram ao topo do ensino público no Brasil? Com uma
mistura de características comuns:
1. Padronização de conteúdo
De acordo com pesquisas, a existência de um currículo obrigatório, com metas
bem definidas, é determinante para o sucesso do ensino. Em grande parte do
Brasil, esse currículo ainda não existe. Nas escolas campeãs, ao contrário,
há um padrão comum a toda rede, que garante a homogeneização do que é
ensinado aos estudantes. Aqui é essencial um Plano de Educação, que articule
e oriente as políticas educacionais municipais.
Por garantir essa padronização, muitas redes adotaram sistemas estruturados
de ensino, que fornecem um pacote de serviços com apostilas para docentes e
alunos, capacitação de professores, acompanhamento pedagógico e serviços de
um portal na internet. O custo mensal é de, em média, 200 reais por
estudante. De olho no potencial das redes municipais, que assumiram a o
controle da Educação das redes locais sem preparo técnico, grandes empresas
do ramo, como o COC e o Objetivo, passaram a produzir versões voltadas para o
ensino público, com conteúdo mais tradicional e apostilas mais baratas do que
as usadas nas escolas particulares.
Das seis escolas, apenas uma não aderiu a um sistema estruturado de ensino. O
motivo: falta de dinheiro. "Recebemos livros didáticos gratuitamente por
meio do PNLD [Programa Nacional do Livro Didático] e o dinheiro que
economizamos com a compra das apostilas é aplicado de outras maneiras na
Educação do município", explica a secretaria de Educação de Barrinha,
Rosemary Merli.
2. Valorização do professor
Nas escolas de bom desempenho, a valorização dos professores tem duas
frentes: remuneração e capacitação.
As bonificações estão atreladas à assiduidade dos mestres. Além disso, a
média salarial corresponde, em geral, a média salarial geral de cada cidade.
Também investe-se em formação inicial e continuada. Convênios entre
faculdades locais e prefeitura garantem descontos para cursar uma faculdade
ou curso de pós-graduação. Mais de 90% dos professores das escolas campeãs
têm ensino superior completo. Em Santa Fé do Sul, por exemplo, é comum
encontrar professores com duas pós-graduações. No Brasil, ao contrário, quase
30% nem sequer possuem curso de graduação e apenas 9% dos professores
participam de programas de formação continuada.
Em Santa Fé, em Cajuru e Adolfo as capacitações são de responsabilidade das
empresas que fornecem sistema estruturado de ensino, Em Barrinha, a própria
prefeitura organiza os cursos, trazendo palestrantes da região.
3. Presença garantida do professor e do aluno
Em todas as escolas, a conscientização para combater ausências de professores
e alunos é a chave para índices de faltas próximos de zero. O combate à
rotatividade e ao absenteísmo dos professores está atrelado, na maioria dos
casos, a bonificação salarial. "Em cinco anos, nunca tivemos uma aula
vaga", orgulha-se Rosemary Merli, secretaria da Educação de Barrinha. Na
cidade, professor que não falta leva 14º salário. O resultado? "Não
temos rotatividade", conta diretora da Arminio Giraldi, Edmárcia Gomes.
Não há crianças fora da escola, mas o combate à evasão é continuo. Em
Barrinha, por exemplo, os chamados educadores sociais visitam a casa do aluno
se ele faltar 3 vezes seguidas. Esses profissionais questionam a família
sobre o motivo das faltas e levam a tarefa, caso a criança esteja doente.
"Para achar a família, o educador social vai à casa do aluno até no fim
de semana", explica a diretora Edmárcia Gomes.
4. Mais horas na escola e atividades no contraturno
A exemplo do que ocorre em países onde a educação funciona bem, as crianças
passam mais tempo na escola. A média no ensino fundamental I é de 5 horas,
contra 4,3 no restante do país.
Além disso, há atividades extra-curriculares no contraturno. Muitas vezes,
elas são dadas em espaços alternativos, fora da escola. São disciplinas
atrativas, como esporte e arte. Em Barrinha, há oficinas de poesia, aulas de
natação, dança e pintura, além de atividades ao ar livre, como o cultivo da
horta. Santa Fé do Sul tem aulas de educação ambiental, teatro e judô. Antes
da aprovação da lei que tornou obrigatório o ensino de música, o município implementou
por conta própria as aulas de flauta.
Em Adolfo, o projeto Espaço Amigo oferece aulas de esporte e artesanato. As
crianças também têm hora marcada para a tarefa.
5. Trabalho em equipe
Professores afinados, coordenados por um diretor que sabe motivar a equipe e
mobilizar a comunidade. A experiência das escolas campeãs mostra que a ênfase
no trabalho em equipe dá bons resultados. "Nosso trabalho é, de fato,
coletivo. Envolve a direção, os professores e a secretaria de Educação",
afirma Eliana aparecida Piccini Coelho, da André Ruggeri.
O envolvimento de todos é um dos aspectos mais importantes para o sucesso
dessas escolas. A ex-diretora da Elisabeth Maria Cavaretto de Almeida Odete
Stefanoni, que comandou a escola até o fim de 2008, conta que até mesmo os
funcionários da limpeza estimulavam as crianças a ler, voluntariamente.
"Ninguém faz nada sozinho. Foi um trabalho de equipe mesmo, com enfoque
especial à alfabetização"
6. Continuidade na gestão escolar
Adolfo, Barrinha e Cajuru reelegeram seu prefeito, o que implica na
continuidade dos trabalhos na secretaria de Educação e dos funcionários e na
manutenção do mesmo quadro de funcionários. Em Santa Fé do Sul, depois de um
mandato de 8 anos do governo anterior, a oposição foi eleita, com a promessa de
não mexer em nada na Educação.
Manter a boa nota é um desafio para essas escolas. "Os gestores dessas
instituições são cobrados por isso", diz Paula Louzano, pesquisadora na
área de Educação. O exemplo dessas cidades mostra que avanços no ensino
dependem da continuidade de boas políticas públicas e da definição de metas
bem planejadas.
7. Boa infra-estrutura, biblioteca e internet
As escolas campeãs não têm infra-estrutura de parque de diversões. Pelo
contrário. As instalações são simples, porém limpas e bem-cuidadas. Não há
depredação. Como não há, muitas vezes, espaço físico grande, as escolas
buscam soluções. Em Adolfo, a falta de espaço físico deu lugar a uma solução
simples, porém criativa. O projeto Espaço Amigo converteu uma área ociosa da
prefeitura em quadra de esportes e sala de artesanato. O trajeto entre as
escolas da rede e a prefeitura é feito em companhia de um inspetor.
As escolas campeãs também contam com biblioteca e com acesso à internet e/ou
laboratório de informática.
8. Participação dos pais na escola
Pesquisas em todo o mundo comprovam que a participação dos pais é fundamental
para a aprendizagem das crianças. Um estudo recente da Fundação Itaú Social,
por exemplo, revelou que a participação da família na educação representa 70%
do desempenho escolar de um estudante. Pensando nisso, as escolas que ocupam
o topo do ranking do Ideb envolveram os pais. "Isso faz a diferença
entre uma boa escola e uma mediana", diz a diretora da escola André
Ruggeri, de Cajuru, Eliana Aparecida Piccini Coelho.
Palestras voltadas para os pais são a receita da escola Arminio Giraldi, de
Barrinha. "Chamamos psicólogos e educadores da região para ministrá-las.
A adesão dos pais é grande", explica a diretora Edmarcia Gomes. Os temas
giram em torno da importância de estimular a criança com brincadeiras a
postura correta dos pais em relação ao dever de casa. Em Adolfo, os cursos de
artesanato e capoeira, oferecidos aos alunos no contraturno, envolvem os
pais, o que contribui para engajá-los na Educação das crianças.
9. Avaliação constante para identificar os defasados
A experiência internacional diz que avaliar e cobrar resultados é importante
para avançar. Em Adolfo, Cajuru e Santa Fé do Sul, as avaliações são
elaboradas com apoio das empresas fornecedoras de material didático e sua
periodicidade é definida em parceria entre as redes e empresas. Em Barrinha,
uma avaliação anual é elaborada pela secretária de Educação. O resultado
dessa nova define quem precisa ou não de aulas de reforço.
Além disso, há provas bimestrais e tarefas. A Emei Maria Elisabeth Cavaretto
de Almeida, em Santa Fé do Sul, também recorre à simulados do Ideb, com
conteúdo semelhante à da prova feita pelo Inep.
10. Reforço no contraturno para os defasados
Não existem estatísticas oficiais no Brasil sobre reforço escolar, mas são
raras as redes de ensino que fazem uso desse tipo de aula. Nas escolas
campeãs do Ideb, porém, o reforço acontece, no mínimo, duas vezes por semana,
no contraturno - em Barrinha, ele ocorre diariamente. A valorização do reforço
nessas redes parte da seguinte premissa: todos podem aprender, mas os
estudantes têm ritmos diferentes de aprendizagem. O diagnóstico dos atrasados
vem do contato diário com o professor e do resultado das provas e de
avaliações periódicas. "O professor também avalia o aluno diariamente,
na rotina das aulas", explica a diretora da diretora da escola André
Ruggeri, de Cajuru, Eliana Aparecida Piccini Coelho
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