SECRETARIA DA EDUCAÇÃO DO ESTADO DA BAHIA – SEC
Colégio Estadual Fred Gedeon
Professor Orientador: Genivaldo
Pereira dos Santos
Formação de Professores do Ensino
Médio
RESUMO CADERNO – 02 - O JOVEM COMO
SUJEITO DO ENSINO MÉDIO
Construindo uma noção de juventude
Mas como diz
a letra da música: o jovem não é levado a sério. É uma tendência na escola de
não considerar o jovem como interlocutor válido na hora da tomada de decisões
importantes para a instituição. Muitas vezes, ele não é chamado para emitir
opiniões e interferir até mesmo nas questões que lhe dizem respeito
diretamente. E isso, sem dúvida, pode ser considerado como um desestímulo à
participação e ao protagonismo. E se os jovens estudantes fossem perguntados:
“você acha que é levado a sério?”; o que diriam?
A música também
denuncia outro fenômeno comum: a criação de imagens e preconceitos sobre os
jovens. A tendência, sob esta perspectiva, é a de enxergar a juventude pelo
lado negativo. O jovem é aquele que ainda não se chegou a ser. Nega-se assim o
presente vivido. Desta forma, é preciso dizer que o jovem não é um pré-adulto.
Pensar assim é destituí-lo de sua identidade no presente em função da imagem
que projetamos para ele no futuro.
É preciso
cuidar para que o sujeito jovem não se transforme num problema para a sociedade.
Isso pode fazer dele uma “nova classe perigosa” a ser combatida. Se nos
apegarmos a “modelos” negativos socialmente construídos, correremos o risco de
produzirmos imagens em negativo de nossos jovens.
Acreditamos
que as recentes manifestações de rua iniciadas no Brasil, em junho de 2013
servirão
para
relativizar este impulso desqualificador da capacidade de atuação política das
presentes gerações de jovens brasileiros.
E o que seria então a juventude?
Podemos
afirmar que a juventude é uma categoria socialmente produzida. Temos de levar
em conta que as representações sobre a juventude, os sentidos que se atribuem a
esta fase da vida, a posição social dos jovens e o tratamento que lhes é dado
pela sociedade ganham contornos particulares em contextos históricos, sociais e
culturais distintos.
Consideramos
a categoria juventude parte de um processo de crescimento totalizante, que
ganha contornos específicos a partir do conjunto das experiências vivenciadas
pelos indivíduos no seu contexto social. Isso significa entender a juventude
não como uma etapa com um fim predeterminado e muito menos como um momento de
preparação a ser superado quando se
entrar na
vida adulta.
A juventude
constitui um momento determinado, mas não se reduz a uma passagem. Ela assume
uma importância em si mesma como um momento de exercício de inserção social. Nele,
o indivíduo vai se descobrindo, descortinando as possibilidades em todas as
instâncias da vida social, desde a dimensão afetiva até a profissional. Esta
categoria ganha contornos próprios em contextos históricos, sociais e culturais
distintos. As distintas condições sociais (origem de classe e cor da pele, por
exemplo), a diversidade cultural (as identidades culturais e religiosas, os diferentes
valores familiares etc.), a diversidade de gênero (a heterossexualidade, a
homossexualidade, a transexualidade) e até mesmo as diferenças territoriais se
articulam para a constituição das diferentes modalidades de se vivenciar a
juventude.
O esforço de
conhecer e reconhecer os jovens estudantes pode levar à descoberta dos jovens
reais e
corpóreos que habitam a escola.
E que, em
grande medida, podem se afastar das representações negativas dominantes ou das
abstrações sobre o “jovem ideal”. Buscar perceber como os jovens estudantes constroem
o seu modo próprio de ser é um passo para compreender suas experiências, necessidades
e expectativas.
Jovens, culturas, identidades e
tecnologias
Hoje, os
jovens possuem um campo maior de autonomia frente às instituições do denominado
“mundo
adulto” para construir seus próprios acervos e identidades culturais.
Um dos
princípios organizadores dos processos produtores das identidades contemporâneas
diz respeito ao fato de os sujeitos selecionarem as diferenças com as quais
querem ser reconhecidos socialmente. Isso faz da identidade muito mais uma
escolha do que uma imposição.
Uma das mais
importantes tarefas das instituições educativas hoje está em contribuir para que
os jovens possam realizar escolhas conscientes sobre suas trajetórias pessoais
e constituir os seus próprios acervos de valores e conhecimentos não mais
impostos como heranças familiares ou institucionais. Partimos da óbvia
constatação de que esses jovens com os quais nos relacionamos diariamente em
nossas escolas têm coisas a aprender, contudo, apostamos em nossa capacidade de
aprender com eles a experiência de viver de forma inovadora, criativa e
solidária o tempo de juventude. Os jovens sujeitos do Ensino Médio nos trazem
cotidianamente desafios para o aprimoramento de nosso ofício de educar. Entre
esses desafios, encontra-se a difícil tarefa de compreensão dos sentidos os
quais os jovens elaboram no agir coletivo, em seus grupos de estilo e
identidades culturais e territoriais que, em grande medida, nos são apenas
“estranhos” (no sentido de estrangeiros) e diferem de muitas de nossas concepções (adultas) de educação (escolar
ou não), de autoridade, de respeito de sociabilidade “adequada” e produção de
valores e conhecimentos.
Jovens em suas tecnologias digitais
Vivemos num
cenário em que elas estão cada vez mais presentes nas práticas cotidianas.
Operações bastante
corriqueiras têm tido uma intensa presença das tecnologias. E, dentre elas, o
acesso à internet é exemplar para medir a imersão dos indivíduos no mundo
digital. os jovens, em sua maioria, estão imersos na internet e ligados em seus
celulares. Aqueles que, de algum modo, não estão conectados, sentem-se mesmo “peixes
fora d’água”. Um deles nos disse: “sou discriminado por não participar de
nenhuma rede social. É como se eu fosse um alien!”. A atual juventude está tão
imersa nas tecnologias de informação que, por vezes, parece crer que a vida no
passado seria impossível sem as facilidades tecnológicas do presente.
Não seria
exagero dizer que estamos vivendo em uma “ecologia digital” repleta de novas subjetividades
fabricadas nas relações sociais estabelecidas por meio das tecnologias. Alguns autores
chegam mesmo a dizer que estamos em uma situação na qual máquinas e seres humanos
estariam fundidos em uma espécie de amálgama.
O vínculo da
juventude com a tecnologia é da ordem da impregnação e da composição. Símbolos
compartilhados no ciberespaço geram significados e referenciam as atitudes e
posturas das pessoas tanto quanto sinais e gestos do encontro físico. Por isso
se diz que o jovens de hoje são nativos
digitais, uma geração nascida na era da internet.
De um modo
geral, os jovens possuem maior familiaridade com as tecnologias do que seus
professores. E isso coloca em xeque a relação de poder e as hierarquias do
saber na sala de aula.
Os jovens são
desafiados a fazer uso seguro e crítico das novas tecnologias na perspectiva de
dominar os instrumentos do conhecimento e não ser dominados por elas. E, sem
dúvidas, nós, professores e professoras,
podemos ser mediadores importantes neste processo, desde que também nos
preparemos para compreender e participar da produção dessas novas arenas
educacionais que se apresentadas no cenário da cibercultura e das novas
tecnologias de informação e comunicação.
Projetos de vida, escola e trabalho
Até aqui,
buscamos problematizar as múltiplas dimensões que integram as
identidadesjuvenis. Mas nesta fase da vida, além da tendência do jovem em se
defrontar com a pergunta
“quem sou
eu?”, é muito comum também indagarem: “para onde vou?”; “qual rumo devo dar à
minha vida?”
Questões cruciais que remetem à ideia de projeto de vida, um tema muito
importante a ser considerado na relação da juventude com a escola.
O projeto é o
que vai nos permitir fugir aos determinismos e improvisos, organizando e planejando
nossas ações futuras (MACHADO, 2004).
É muito comum
jovens aderirem a determinadas posturas político-ideológicas que marcam um
determinado tempo ou sociedade ou ainda realizarem escolhas profissionais
baseadas nas profissões que são valorizadas no grupo familiar ou aquelas mais
prestigiadas na sociedade em que vivem. Um projeto de vida tende a se realizar na
junção de duas variáveis. A primeira delas diz respeito à identidade, ou seja,
quanto mais o jovem se conhece, experimenta as suas potencialidades individuais,
descobre o seu gosto, aquilo que sente prazer em fazer, maior será a sua
capacidade de elaborar o seu projeto. Será que no cotidiano da escola os jovens
estudantes estão sendo estimulados a conhecerem as suas potencialidades?
Quanto mais o
jovem conhece a realidade em que se insere, compreende o funcionamento da
estrutura social com seus mecanismos de inclusão e exclusão e tem consciência
dos limites e das possibilidades abertas pelo sistema na área em que queira
atuar, maiores serão as suas possibilidades de elaborar e de implementar o seu projeto.
É importante que nós, profissionais da
educação, tenhamos em mente um aspecto essencial desta categoria o caráter indelegável
e intransferível da ação projetada. Ou seja, “não se pode projetar pelos outros”
(MACHADO, 2004, p. 7).
A relação dos jovens com o mundo do
trabalho
Uma outra
dimensão fundamental para se conhecer os jovens e as jovens estudantes diz
respeito às
relações que estes estabelecem com o mundo do trabalho. Não podemos esquecer que
grande parte dos jovens que frequentam o ensino médio em nossas escolas
públicas aliam, ao lado da sua condição de jovens, a situação de pobreza. Esta
dupla condição social e econômica interfere diretamente na trajetória de vida e
nas possibilidades e sentidos que assumem a vivência juvenil.
Um grande
problema é que, no contexto das sociedades contemporâneas, o jovem convive com
a incerteza e riscos com relação ao mercado de trabalho. Em um quadro de
grandes desigualdades sociais, o desemprego e o trabalho precário ou sem
proteção legal têm sido a marca da inserção juvenil no mundo do trabalho.
Os jovens, os sentidos do trabalho e a
escola
Podemos dizer
que a relação dos jovens com o mundo do trabalho não se estabelece de maneira igualitária e nem se resume à dimensão
da necessidade. Para alguns jovens, o período da juventude é um tempo de
preparação e as primeiras experiências com o mundo do trabalho se dão por meio
de estágios e cursos de formação profissional, podendo a inserção no mercado de
trabalho esperar mais um pouco. Para a escola, um primeiro desafio é exatamente
conhecer as diferentes inserções e experiências de trabalhos além de
suasrepercussões para as trajetórias de escolarização dos jovens alunos. As
relações entre o trabalho e o estudo são variadas e complexas e não se esgotam na
oposição entre os termos.
Um segundo
desafio para a instituição escolar é o de refletir sobre o seu papel diante do jovem
e do mundo do trabalho, tendo em vista que o Ensino Médio é a etapa final da
escolarização básica, devendo proporcionar uma formação geral para a vida,
articulando ciência, trabalho e cultura (LDB 9.394/96). Diante do exposto, cabe
refletir sobre em que medida há diálogo das escolas com as experiências de seus
jovens estudantes que trabalham.
Podemos criar
estratégias ou aprofundar as que já existem, de forma a proporcionar uma boa e
equilibrada relação entre escola e trabalho.
Formação das Juventudes, participação
e escola
Falar em
participação implica levar em conta dois princípios complementares. Ela envolve
o
que se pode
denominar de formação teórica para a vida cidadã aprendizagem de valores,
conteúdos cívicos e históricos da democracia, regras institucionais, etc. mas,
também a criação de espaços e tempos para a experimentação cotidiana do exercício
da participação democrática na própria instituição escolar e em outros espaços
públicos. Diante disso, fica a pergunta: será que estes dois principios são
colocados em prática na sua escola? De acordo com a sua experiência e
observação das realidades escolares, você acha que as nossas escolas praticam
ou estimulam em seus tempos e espaços cotidianos a participação cidadã?
Trazendo essa
questão para o Ensino Médio, indicamos que um dos caminhos possíveis para
pensarmos a formação democrática para a vida pública e para o exercício da
cidadania passa pela dimensão da participação. A formação para a cidadania
exige que tratemos da temática juventude e participação junto a sua relação com
a escola.
A experiência
participativa representa uma das formas de os jovens vivenciarem processos de construção
de pautas, projetos e ações coletivas. Além disso, a experiência participativa
também é importante por permitir a vivência de valores, como os da
solidariedade e da democracia, e o aprendizado da alteridade. O que significa,
em última instância, aprender a respeitar, perceber e reconhecer o outro e suas
diferenças. O exercício da participação pode ser, então, uma experiência decisiva
para a vida dos jovens um efetivo contraponto – em uma sociedade que, ao se
individualizar, enfraquece ideias, valores e práticas relacionadas à dimensão
coletiva da vida social.
A relação dos jovens com a escola e
sua Formação
Durante
séculos, foi se consolidando uma cultura escolar com seus tempos, espaços,
métodos e currículos que hoje parecem naturais. Quando se fala em escola, logo
surgem imagens como o quadro-negro, a mesa do professor, as filas de carteiras,
um professor que dirige as atividades
e os alunos
que seguem as instruções dadas por ele. Contudo, os jovens estudantes de hoje
têm cada vez mais dificuldades de adaptação a esse tipo de escola organizada
pela verticalização de hierarquias e linearidade na forma de socialização de
informações e conhecimentos.
O desencaixe
entre a instituição escolar e seus estudantes não deve ser entendido com uma
incompetência da escola em lidar com seus jovens estudantes. É, menos ainda, um
mero desinteresse dos jovens para com o mundo escolar. Trata-se, sobretudo, de
um quadro muito mais amplo de transformações que envolve a instituição
escolar e seus
sujeitos. Mesmo assim, à medida que nos aproximamos do contexto escolar, percebemos
que há muitas possibilidades de interação e compartilhamento com relação à
escola, aos professores e aos próprios jovens que podem ser exploradas.
Os jovens e a escola
A escola é
uma instituição central na vida dos jovens. É um espaço-tempo de convivência e
aprendizado, onde eles passam parte significativa de seus cotidianos.
A
possibilidade de transitar por diferentes instituições, os múltiplos
pertencimentos e seus heterogêneos processos formativos conferem aos jovens um
desejo e uma necessidade de se fazerem ouvir e de valorizar suas formas de
sociabilidade que repercutem no cotidiano escolar.
Eles
reconhecem o papel da escola, mas querem também que a instituição escolar
esteja aberta ao diálogo com suas experiências do presente e expectativas de
futuro. Os sentidos e significados da escola para os jovens Para compreender os
sentidos e significados que os jovens atribuem à escola, é fundamental considerar
que os jovens produzem uma maneira própria de ver e valorizar a escola a partir
de seus pertencimentos aos diferentes contextos sociais. A adesão à escola ou
mesmo a “motivação” para os estudos dependem muito das experiências
individuais, dos interesses e das identidades que se constroem a partir da
realidade vivida e das interações com outras pessoas e instituições, entre elas
a própria escola.
Para jovens
das camadas populares, as experiências dos pais e de outros amigos de bairro
nem sempre acenam para um futuro promissor a partir da escolarização. Muitas
vezes, esta se configura num investimento de alto risco.
Enquanto para
alguns jovens estudantes a escola representa uma obrigação que os pais ou a
sociedade impõem, para outros, estudar está diretamente relacionado à sua
inserção no mercado de trabalho. Assim, traçam planos para o futuro
profissional e esperam que a escola contribua para a sua mobilidade social.
Outros valorizam a escola considerando os aprendizados que ela proporciona para
a vida. Para muitos, o valor da escola está no fato de ser um lugar em que
encontram os amigos, fazem amizades e se relacionam. Por vezes, a escola é um
abrigo protetor em meio a territórios de moradia ameçadores da própria vida. As
pesquisas indicam que os jovens demandam uma escola que faça sentido para a
vida e que contribua para a compreensão da realidade. Eles reivindicam que o
que se ensina na escola tenha vínculos com o seu cotidiano. Muitos jovens
estudantes expressam suas dificuldades para estabelecer uma conexão entre os
conteúdos curriculares e suas vidas. Se a escola é lugar de aprender, é
importante compreender como os jovens aprendem e quais são os conhecimentos que
demandam da escola. Os jovens enfatizam a importância de que seus interesses
sejam considerados, o que é possível quando se estabelece um diálogo entre os
conteúdos curriculares e a realidade. Um último aspecto a se pensar é que o professor
tem um papel importante na mediação entre o ser jovem e ser estudante. Educar
neste cenário nos pede uma maior inserção no universo juvenil: estar próximos
dele e aprender a ouvi-lo, mapear suas potencialidades e estabelecer
relacionamentos interpessoais significativos. Nas sociedades modernas, a escola
é a instituição que tem a função específica de forjar as novas gerações para a
vida social. Seus tempos, espaços, métodos e estruturas são definidos com
intencionalidade educativa.
Razões da permanência e do abandono
escolar
Se perguntarmos
aos jovens sobre as razões do abandono ou permanência na escola, em geral, eles
e elas assumem a responsabilidade pelos fracassos ou êxitos, outorgados pelo
esforço pessoal ou pela falta de interesse na escola. Em outros momentos,
jovens atribuem as razões aos problemas internos da escola, como a falta de
infraestrutura ou a má relação professor-aluno.
A “chatice da
escola”, tal como dizem, é uma avaliação comum entre jovens. Ora falam dos
tempos, ora dos conteúdos, ora da relação e dos métodos utilizados pelos
professores.
Diante desta
realidade, torna-se necessário aprofundar a reflexão para não cairmos na resposta
fácil e no beco sem saída do jogo de culpados sobre o qual nos referimos ao
iniciarmos este texto. Responsabilizar o jovem estudante pelo desinteresse manifesto,
ou a sua família, ou mesmo a sua pobreza, costuma produzir análises superficiais
de pouca serventia para enfrentar o
fenômeno da
crise de realização da escola.
Mas será que
o desinteresse que jovens expressam na vida escolar não pode ser lido como uma dificuldade que estes encontram em atribuir um
sentido à escola, ao que ela tem a oferecer?
É o caso de
nos atentarmos para o fato de que a permanência e o abandono da escola pelos jovens
se constroem na combinação de condições subjetivas apoio familiar, relação
estabelecida com os professores, estímulos originados nas redes de sociabilidade,
engajamento na rotina escolar e condições objetivas possibilidades de
dedicar-se aos estudos, condições financeiras da família, necessidade da
certificação, projetos pessoais mais ou menos delineados que resulta em apropriações
diferenciadas da experiência escolar.
A questão da autoridade do professor,
a indisciplina
É cada vez
mais comum nos depararmos com notícias associadas a situações de violência e agressão
na escola. São ocorrências dentro dela ou ao seu redor, mas que a atingem e,
muitas vezes, interferem em sua organização e nas atividades cotidianas da
instituição.
Há, também,
outras formas de ação que alteram o cotidiano da escola não menos preocupantes,
mas provavelmente menos visíveis midiaticamente, quase como se já fizessem
parte do cotidiano escolar. Estamos nos referindo aos episódios de indisciplina.
Entram nessa categoria a agitação e a gritaria em sala de aula, a falta de
respeito com colegas e professores, a falta de concentração no conteúdo das
aulas, os burburinhos, as mentiras, as manipulações e os conflitos diários.
A proposta,
então, é a de pensar sobre como os jovens estudantes, considerados em sua diversidade,
têm lidado com as regras escolares, quer sejam elas “impostas” ou
“construídas”. E mais, como o modo pelo qual administram a disciplina ou
indisciplina faz também parte do jogo
de
estratégias de interação das expressões juvenis com a escola.
Bagunceiro,
indisciplinado, desordeiro e violento. Estes termos, às vezes, confundem-se por
sua imprecisão e escondem dinâmicas completamentediferentes para se referir
tanto à violência quanto à incivilidade que alguns jovens manifestam na escola.
É bem verdade que, em muitas ocasiões, incivilidade maus hábitos e violência se
misturam. Por isso costuma-se referir a toda quebra de regra ou padrão de
conduta como atos de indisciplina. No cotidiano da escola não é tão tranquilo
diferenciar uma incivilidade de violência, ainda que, conceitualmente, não seja
tão difícil realizar distinção entre os fenômenos.
O intuito,
contudo, é estabelecer parâmetros e
contribuir para que professores e escolas estabeleçam procedimentos adequados
para situações específicas. Medida necessária para não se cair na armadilha de
decretar a “epidemia de violência” quando, na maioria dos casos, se está diante
de situações de quebra de regras disciplinares ou mesmo da ausência de normas
institucional e coletivamente assumidas pela comunidade escolar.
A escola não
é apenas um espaço de aprendizagem, mas lugar social de vivência e experiência
da condição juvenil. O “esbarrão” que um estudante dá em outro no recreio não é
dado em uma pessoa aleatória. Na construção das regras, a primeira coisa para
pensar uma escola justa é compreender como as regras são definidas, quem as
define e como elas são aplicadas. Uma das maiores reclamações dos jovens alunos
é que são os professores, junto aos diretores e à coordenação pedagógica, quem
definem as regras, bem como quando elas devem ser aplicadas e a quais sanções
os alunos devem ser submetidos. Desse modo eles alegam, então, que não só não
compartilham da elaboração das regras, como também estão sujeitos a punições e
sanções das quais não têm clareza.
Quem define,
portanto, o que é justo ou injusto são os professores. E como já vimos, muitas vezes,
os professores vêem os jovens apenas sob a ótica do aluno e filtram toda a gama
de experiência juvenil por meio de critérios exclusivamente escolares de
rendimento e comportamento. Assim, o bom aluno é o que tem certas características;
nos outros, faltam essas características.
Idealizar o
jovem que queremos que exista desconhecendo o jovem real que temos diante de
nós é criar uma abstração que violenta a subjetividade juvenil e também cria
uma dificuldade para o relacionamento. E, da mesma forma, enxergá-lo pela ótica
da negatividade não contribui para apreender os modos pelos quais os jovens
constroem a sua efetiva e multifacetada experiência de juventude.